Sobre decisões difíceis e Gestão

 / 12.09.2019

Tomar boas decisões é uma daquelas habilidades que diferenciam grandes profissionais de todo o resto. E o aprendizado para que se chegue em um nível onde as boas decisões são a maioria é, sem dúvidas, doloroso. 

Em determinado momento, boas decisões se confundem, por diversas vezes, com decisões difíceis. Isso é regra para o mundo profissional, mas também para a vida. Principalmente em cargos de liderança, onde a tomada de decisão pode afetar toda uma cadeia de pessoas, é necessário ter princípios basilares fortes para que tudo não caia por água abaixo. 

Nas empresas, noto que muitos profissionais têm sofrido quando o assunto é tomar decisões difíceis. Por serem mais abertas e horizontais, onde todo mundo tem voz, o processo de tomada de decisão para aqueles em posição de liderança parece ser, muitas vezes, nebuloso. Na ânsia em ouvir todo mundo e em não querer sair como o “mau” da história, decisões fracas são tomadas. E isso acaba afetando todo mundo. 

A grande questão é: Em todas as empresas, mesmo naquelas mais abertas e horizontais, alguém precisa tomar as decisões difíceis. Alguém precisa chamar para si essa responsabilidade. O famoso “dar a cara a tapa”. 

A democracia funciona bem como sistema político, mas muitas vezes não é a melhor saída para uma empresa. É claro, não digo aqui que um líder déspota é o melhor caminho para as companhias. O que quero dizer é que, por diversas vezes, um líder terá que tomar decisões difíceis pelos negócios e pelos clientes, mesmo que em detrimento da maioria dentro da empresa. Pode ser doloroso, mas é necessário. O que jamais pode faltar é abertura para que todos possam emitir suas opiniões. 

Para ilustrar o que venho falando, trago um caso do livro Trillion Dollar Coach, lançado esse ano, que conta a história de Bill Campbell, lendário conselheiro de executivos como Larry Page, Jeff Bezos e Steve Jobs. Campbell era conhecido como o coach (muito antes da palavra ter entrado na moda. Imagine o que ele pensaria dessa moda de coaches aqui no Brasil… Triste). 

Quando passavam por alguma dificuldade ou não sabiam qual decisão tomar, os maiores executivos do Vale do Silício ligavam para Bill. 

Eric Schmidt, então como CEO do Google, decidiu ligar para o coach em uma dessas ocasiões. Segundo Eric, dois de seus gerentes estavam discutindo para que suas respectivas equipes ganhassem o direito de desenvolver uma determinada aplicação. Eric, que não gostava desse tipo de conflito entre as lideranças da empresa, reuniu os dois gerentes e pediu para que eles se entendessem. As duas equipes podiam, inclusive, trabalhar juntas. Isso geralmente funcionava bem e as equipes conseguiam produzir, mas nesse caso, não houve jeito. Nenhum dos líderes abria mão de que sua própria equipe fosse a responsável pela aplicação. 

Eric então pediu os conselhos de Bill. 

O coach foi bem direto: “Você diz: “Tudo bem, ou vocês dois resolvem essa situação, ou eu mesmo resolvo””. 

Eric seguiu o conselho de Bill e deu aos líderes apenas mais uma semana para que chegassem a um acordo sobre o desenvolvimento da aplicação. Nada feito. Eric, então, teve de tomar a decisão final e delegou o desenvolvimento para uma das equipes. 

Segundo Bill, o principal papel de um líder dentro de uma empresa é ser um facilitador de decisões. A democracia não serve para decisões difíceis como essa. Para o coach, um líder deveria sempre buscar a melhor ideia, não necessariamente o consenso de todos. 

Assim, cabe a um gestor avaliar as situações e dizer “Faremos assim. Pronto”. É fato que nem sempre as melhores ideias irão vencer, como no caso de Eric, quando os dois gerentes não conseguiram chegar a uma melhor ideia final. Nesses casos, é preciso que o líder chame para si a responsabilidade. 

Segundo Eric Schmidt, Campbell costumava utilizar a analogia da Távola Redonda. A mesa pode ser circular e sem ninguém na cabeceira, o que dá a ideia de igualdade de opinião e importância para todos. Mas no fim do dia, ainda existe um trono. E quem está sentado no trono deve tomar as decisões finais. 

Da mesma forma, por mais aberta e horizontal que seja uma empresa, por mais circular que seja a mesa, precisa existir um trono. Não como símbolo de poder, fama ou status. Mas sim como símbolo de que ali está sentado alguém que tomará as melhores decisões, não importa o quão difíceis elas sejam. 

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Uma resposta para “Sobre decisões difíceis e Gestão”

  1. Marcos Antonio disse:

    Parabéns e obrigado pelo conteúdo Allan. Sempre muito rico. Participei de uma palestra ministrada por você em um fórum da OCEPAR em Curitiba. Você é fera. Grande abraço!

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Allan Costa
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