ClubHouse – o que a nova rede social nos ensina sobre senso crítico

 / 09.02.2021

O grande aprendizado aqui é algo tremendamente útil em qualquer aspecto das nossas vidas cotidianas: cuidado, sempre, com os extremos.

Foi inevitável: com todo o burburinho cercando a Clubhouse, a nova rede social baseada em áudio, tive que me render e criar minha conta de acesso. No mínimo, para conhecer e saber o que existe de tão sensacional por lá a ponto de despertar tamanho interesse em tão pouco tempo.

A resposta: uma lição a respeito da necessidade de, cada vez mais, exercitarmos nossa capacidade crítica para viver de forma mais lúcida nesse mundo que se desenha à nossa volta.

Comecemos pelos aspectos positivos.

De fato, há novidade e potencial por ali. Em linhas bem gerais, a Clubhouse é estruturada como um amontoado de salas de bate papo, onde pessoas se reúnem para debater assuntos diversos. Uma espécie de 145 (disque amizade) das antigas. O uso exclusivo de áudio é de fato uma novidade, e existem algumas salas com gente realmente muito interessante, com conteúdo de valor debatendo temas relevantes com alguma profundidade. Sim, tem coisa muito boa na nova rede social.

Mas agora, vamos à análise além do burburinho.

O que encontrei, em 90% das vezes, foi tremendamente chato. Gente que se autodefine como “influenciadores” e “autoridades”, em geral seguidos do complemento “digital”, falando mais do mesmo, com foco predominante em si mesmos, tudo envolto em doses cavalares de autopromoção e egos tremendamente inflados.

Em um mundo que tende a supervalorizar a modinha da vez, apenas o elevado senso crítico pode nos dar alguma direção coerente.

Por exemplo, porque será que uma rede social baseada em áudio, infestada de influenciadores digitais e de gente que vive de vender coisas na Internet – e nada contra esse tipo de atividade, ao contrário -, cresceu de maneira tão vertiginosa nesse mesmo mundo digital?

É simples: porque é o ambiente perfeito para esses mesmos influenciadores atraírem mais gente para suas salas “exclusivas”, com o intuito de venderem mais do que quer que eles vendam.

Como já disse, e reforço, absolutamente nenhum problema nisso. O problema está em acharmos que esse impulsionamento todo se dá porque a rede é mesmo tão legal. Ela até é. Mas há mais interesses nisso do que o primeiro olhar revela.

Outra forma de exercer um olhar crítico sobre a novidade é falar de inclusão.

A maioria das personalidades impulsionando ativamente a rede, também defende bandeiras inclusivas, respeito às minorias e diversidade. Mas, na Clubhouse, o faz em um ambiente em que só quem tem um dispositivo da Apple pode ter acesso (tipicamente, a população de maior poder aquisitivo, já que os dispositivos Android existem em versões mais baratas e mais “inclusivas”, ao contrário dos aparelhos reconhecidamente caros da marca da maçã), e onde pessoas com limitações auditivas estão fora por definição. Ou seja, contraditório, para dizer o mínimo.

O grande aprendizado aqui é algo tremendamente útil em qualquer aspecto das nossas vidas cotidianas: cuidado, sempre, com os extremos.

A nova rede social não é nem a última maravilha do mundo digital, nem uma novidade imprestável sem utilidade prática. Ela tem sua importância, mas está longe de ser uma unanimidade que vai transformar a forma como o mundo consome conteúdo. Ela deverá, ao longo do tempo, encontrar seu lugar, e se tornar efetivamente relevante para um grande número de produtores e consumidores de conteúdo.

Mas muito cuidado, não só no caso da Clubhouse, mas em qualquer coisa que vira moda da noite do dia.

A Internet potencializou a capacidade humana de criar e disseminar informação. E isso nos inunda de estímulos que devem ser filtrados, para identificarmos o que de fato faz sentido e o que é descartável.

A boa notícia, é que por mais tecnologia que tenhamos a nossa volta, ela ainda não é capaz de afetar de forma direta a única coisa que precisamos para exercitar esse senso crítico: nosso cérebro! Basta usá-lo sem cerimônia.

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Allan Costa
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