Sobre o Hype da Inovação

 / 08.08.2019

Conversando com gestores do Brasil inteiro, é bastante comum perceber que muita gente (muita mesmo!), ainda tem problemas em entender o que realmente significa inovação

Quando converso com esses profissionais, muitos deles ainda tratam inovação como um sinônimo de tecnologia. E há um perigo nisso tudo. 

Eu não tenho dúvidas de que tecnologias como inteligência artificial e blockchain são revolucionárias e impactarão muito as nossas vidas (e isso já começou). Contudo, colocar inovação e tecnologia como sinônimos só faz com que muitas pessoas percam o foco no que realmente importa ao tentar inovar. 

O invés de tentar buscar inovar para gerar mais valor para os clientes, a corrida pela inovação se tornou uma corrida desvairada por novas tecnologias. 

 

Está todo mundo usando IA? Quero também!

Está todo mundo usando automação? Quero também!

Está todo mundo usando blockchain? Não sei nem o que é isso… Mas quero também!

 

Perceba o perigo dessa abordagem. Obviamente, não há nada de errado em utilizar IA, automação, blockchain (ou seja lá o que for!) na sua empresa. Mas isso é um passo POSTERIOR. 

Digo posterior pois ele deve vir DEPOIS de se decidir o PORQUÊ você quer utilizar essas tecnologias. Não adianta de nada tentar usar as melhores tecnologias do mundo se aquilo não está sustentado por uma grande razão de ser. E essa razão sempre deve ser: melhorar a experiência final do cliente. 

A abordagem jamais deve ser: “Quero inovar usando IA”; “Quero inovar usando blockchain”; “Quero inovar usando automação”.

Ao invés disso, proponho algo do tipo: “Podemos usar IA para inovar?”; “Podemos usar blockchain para inovar?”; “Podemos usar automação para inovar?”.

De uma hora para outra, todo mundo parece estar falando de inovação. Todos querem inovar, todos querem surfar na onda da tal “inovação”. É claro! Ninguém quer ser deixado para trás, certo?

Estamos em um dos melhores momentos da história para quem quer fazer diferente, para quem quer usar tecnologia para prover valor para as pessoas. Mas como falei, isso deve ser consequência do ato de inovar. 

Um report recente da companhia britânica de venture capital MMC revelou que 40% das startups da Europa que se definem como startups de inteligência artificial, na verdade não o são. 

Muita gente está surfando nessa onda justamente pelo hype da inovação. Segundo a própria MMC, startups que colocam “inteligência artificial” na sua definição levantam entre 15 e 50% mais capital do que aquelas que não usam essas “palavras mágicas”. 

É impossível não lembrar do exemplo da On-line PLC, companhia que viu suas ações saltarem 394% após adicionar “blockchain” ao seu nome. É maluquice!!!

Eu entendo todo esse hype, mas não posso deixar de criticá-lo. Nunca (jamais!) a utilização de uma determinada tecnologia deveria definir per se se uma empresa é inovadora ou não. Não canso de repetir: tecnologia é meio, nunca um fim

Quanto mais eu vejo empresas utilizando termos da moda para parecerem inovadoras, mais certeza tenho do potencial das companhias que estão realmente utilizando essas tecnologias (e mais tenho certeza do insucesso futuro das que apenas “fingem” usar). 

Mas afinal, como inovar sem cair no hype? Como quase tudo no mundo dos negócios (e na vida), é necessário prestar atenção aos princípios mais básicos. 

No mundo dos negócios, isso pode ser traduzido como “colocar o cliente no centro de tudo”. É muito fácil tentar ser inovador e se perder no meio de tantas novas promessas tecnológicas que aparecem todos os dias. A primeira pergunta a ser feita deve ser algo como: “Isso realmente adiciona valor ao meu cliente?”. Se a resposta não for um claro ou potencial “sim!”, é melhor repensar. Você pode estar entrando apenas em uma massagem de ego para tentar mostrar o quão inovadora a sua empresa é, sem que isso seja verdade. 

Você sabia que na Holanda, 50% das pessoas com mais de 55 anos se sentem extremamente solitárias. O que isso tem a ver com inovação? TUDO!

Muitos idosos se sentem solitários e ainda vêem os ambientes sociais, como supermercados, como um reduto para que conversem com outras pessoas, mesmo que por poucos minutos. O problema é: Muitos deles se sentem inseguros em frequentar locais como esses por causa de sua inabilidade tecnológica (como usar um cartão de crédito, por exemplo). O fato dos idosos desejarem conversar com os caixas dos supermercados e sua demora em utilizar tecnologia muita vezes irrita algumas pessoas. Isso acabou afastando muitos idosos dos supermercados holandeses. 

A rede Jumbo Supermarket decidiu fazer algo a respeito e tomou duas iniciativas para que os senhores e senhoras voltassem a frequentar o local sem o receio de se sentirem deslocados. 

A primeira, criar, junto com a fundação para idosos Alles Voor Mekaar, o “All Together Coffee Corner”, um espaço no supermercado para que pessoas de mais idade se encontrem, tomem um café e conversem. 

A outra (e essa é simplesmente sensacional), foi criar um novo tipo de caixa, o “Chat Checkout”, uma espécie de “caixa da conversa”. Nesse caixa, a proposta é que o cliente possa demorar quanto tempo precisar. O convite a ele diz algo como “Se você não está com pressa, mas quer conversar”. Os profissionais operando esses caixas puxam papo e deixam com que os clientes conversem e se sintam à vontade. 

As grandes tendências dos supermercados é que as coisas se tornem cada vez mais rápidas. Lojas como Amazon Go e Zapier trazem supermercados sem caixa, sem interação. Para muitos de nós, isso é um sonho. Para muitas pessoas, como idosos, a necessidade de frequentar locais como esses e ter gente para conversar é essencial. 

Com ações simples, o Jumbo Supermarket conseguiu inovar. Observaram uma parcela de clientes insatisfeitos e decidiram agir. 

Sem perseguir a tecnologia simplesmente pela tecnologia em si. Tudo começou ao olhar para dentro do negócio e perguntar: “Como podemos prover valor para os clientes?”. 

Inovação como ela deve ser

 

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2 respostas para “Sobre o Hype da Inovação”

  1. Francisco Carlos Rogerio disse:

    Caro Allan

    Gostei muito desse artigo.
    Defino inovação simplesmente como: “fazer diferente, com melhores resultados”.
    Isso se aplica a produtos e serviços, processos e modelos de negócios.

    Abração,

    Francisco Rogerio

  2. Perfeito! Reflexão necessária. Sinto a mesma coisa. Minha praia é na educação. E tenho exatamente a mesma percepção quando converso com gestores e professores sobre Gestão da Inovação e transformação digital nas escolas e IES. Para muitos – muitos mesmo – consideram tecnologia como sinônimo de inovação.
    – Adquirimos o sistema da empresa XPTO..
    -Todas nossas salas são equipadas com lousa interativas.
    -Nossos alunos utilizam tablets em taiis disciplinas.

    Considero tecnologia uma ferramenta. E ferramentas servem para facilitar ou acelerar um processo ou tarefa. Agora, sem propósito pedagógico a tecnologia pode ser uma armadilha, e de repente acelerar ainda mais um processo pouco eficiente. Ou seja, os alunos podem aprender menos, e não mais quando a tecnologia é utilizada sem propósito pedagógico.

    Como você bem disse, tecnologia é meio, e nunca fim.

    Sou a favor de tecnologia na educação, muito a favor, mas com propósito pedagógico claro e investimento em treinamento de professores. Se não é Hype também…

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Allan Costa
(41) 99878-5055
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