O Mito do fundador Jovem

 / 10.10.2019

Um dos temas que mais gosto de abordar nos meus textos, palestras e vídeos são alguns grandes mitos que vejo por aí. Eles podem ser relacionados a carreira, empreendedorismo, investimento, startups etc. 

Hoje, vou falar sobre mais um deles: o mito do fundador jovem. 

É comum vermos por aí notícias de jovens de vinte e poucos anos que lançaram um negócio de sucesso e, alguns anos depois, tornaram-se milionários (ou até bilionários). 

Esses empreendedores aprenderam a utilizar as tecnologias exponenciais para criar negócios que crescem muito, de forma muito rápida. Mark Zuckerberg, com o Facebook. Evan Spiegel, com o Snap. Kevin Systrom, com o Instagram. Todos são grandes exemplos de fundadores jovens e que alcançaram sucesso gigantesco aos vinte e poucos anos. 

Contudo, existe uma “armadilha” nessa história toda. 

A partir dessas exceções, surgiu o mito do fundador jovem. Um jovem de 20 e poucos anos, um tanto “alternativo”, muitas vezes com conhecimento em tecnologia ou design, que cria um aplicativo e, poucos anos depois, se torna milionário. 

O problema desse mito é justamente a sua existência: ele é um mito. Contudo, mesmo assim, muitas pessoas ainda acreditam nessa história toda. Em minhas palestras e mentorias pelo Brasil afora, é normal me deparar com jovens, muitos deles ainda ou recém saídos da faculdade, buscando incessantemente pela próxima “ideia milionária”. 

Esses jovens, fascinados pelas histórias dessas grandes exceções, perdem oportunidades incríveis de carreira e aprendizado por focarem de forma quase cega no tal do empreendedorismo. E não me entenda mal!!! Eu sou empreendedor e acredito no potencial transformador do empreendedorismo. 

Mas não, empreender não é para todo mundo. E empreender não é, certamente, algo fácil. 

O mito do jovem fundador faz com que muitos jovens enxerguem o empreendedorismo como o único caminho. Aprender em um emprego em alguma outra empresa? Não.  Trabalhar para alguém? Jamais. 

Tenho observado que, de repente, querer ter uma carreira, mesmo que por alguns anos, parece ter virado algo errado. 

Contudo, até os dados demonstram que o fundador jovem e super bem-sucedido não passa, afinal, de um mito. 

Segundo uma pesquisa da U.S Bureau e do MIT, a média de idade dos fundadores das startups de crescimento mais rápido não é 20 nem 25 anos, mas sim 45. Segundo essa mesma pesquisa, um empreendedor na faixa dos 50 anos de idade tem praticamente o dobro de chances de fundar uma empresa de sucesso do que um empreendedor com 30 anos de idade. E para desmistificar de vez a história: Menos de 1% das startups que alcançam o sucesso são fundadas por empreendedores na faixa dos 20 anos. 

Se por um lado os jovens (pelo menos muitos deles) possuem muito mais abertura a riscos e muito mais possibilidade de se debruçar por inteiro sobre um projeto (sem que precisem se preocupar com milhares de outras responsabilidades), por outro, são também muito mais inexperientes e inconsequentes em suas ações. 

Um empreendedor na faixa dos 40 a 45 anos pode possuir muito menos conhecimento sobre as novas tecnologias, mas pode possuir mais inteligência em relação à parte business da coisa, o que é um ativo imensamente poderoso. 

O que observo é que muitos jovens empreendedores subestimam os anos e a experiência nessa equação toda. 

E sim, os vinte e poucos anos são uma ótima época para tomar riscos. As perdas são, em geral, menores. Mas também é uma ótima época para se juntar a empresas, buscar mentores, colocar a cara a tapa e desenvolver novas habilidades, principalmente emocionais. 

Nessa mesma pesquisa do MIT que citei acima, os pesquisadores constataram que profissionais que trabalharam na mesma área na qual, posteriormente, fundaram um negócio próprio, eram 125% mais bem-sucedidos do que aqueles que não o faziam. Ou seja, a experiência importa. E muito. 

Se você é um jovem de 20 e poucos (ou muitos) anos que está lendo esse texto, saiba que não existem verdades universais (se você ainda não me conhece, logo vai descobrir que eu odeio esse tipo de coisa). 

Existem sim, boas práticas. 

Se você ainda acredita no mito do fundador jovem, sugiro que repense. Um jovem de 20 e poucos anos tem um mundo a descobrir e ainda não possui muitos dos vícios que acabamos adquirindo (e lutando contra) quando ficamos mais velhos. 

Um jovem de 20 e poucos anos costuma ser ousado e disposto a trabalhar e dar a cara a tapa. Essas são características que, com certeza vão te diferenciar. Você pode sim ter experiências empreendedoras durante esse período. Elas são extremamente enriquecedoras. 

Mas não feche sua mente para outras oportunidades e pense que “apenas o empreendedorismo salva”. Aproveite essa época incrível para encontrar mentores, errar, fazer conexões valiosas e construir track record e reputação. Isso são coisas que levam décadas, mas que retornam exponencialmente ao longo do tempo. 

Entre perseguir o mito e a realidade, escolha a realidade. Use os seus 20 e poucos anos para “criar casca” e adquirir experiência. 

Isso tudo vai te preparar para os grandes desafios da vida e, tomara, serão de grande ajuda quando você decidir embarcar de vez nesse mundo maluco do empreendedorismo. 

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Allan Costa
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