A modinho do Propósito

 / 19.09.2019

De tempos em tempos surgem algumas buzzwords no mundo dos negócios. Já falei anteriormente aqui no blog sobre o hype da inovação, por exemplo. De repente, todo mundo está falando sobre inovação. Todo mundo mesmo!!!

Mas, como gosto de brincar, inovação é como sexo na adolescência. Todo mundo fala sobre aquilo, mas quem realmente está fazendo? “Inovar é preciso”, “Quem não inovar vai morrer”, “A inovação é essencial para a sua empresa”. Ok, tudo certo!!! E agora? Qual o próximo passo? 

O que tenho visto é muito discurso e pouca prática. 

Assim como o hype da inovação, hoje quero abordar outra buzzword: o tal do propósito. Como já mencionei, de tempos em tempos alguns empreendedores e profissionais buscam palavras mágicas para adicionar ao seu vocabulário. Tenho me deparado cada vez mais com empreendedores, principalmente aqueles ligados a startups, usando o propósito quase como uma carta curinga. 

Não me entenda mal, o propósito é, de fato, importante. Já falei diversas vezes sobre ele em palestras Brasil afora. O propósito é o cerne daquilo que fazemos. Ele deve funcionar como uma lanterna que nos guia. Se o nosso propósito não é forte o suficiente, é fácil ficarmos perdidos naquilo que estamos fazendo e acabarmos indo por caminhos que nos deixam infelizes. 

Contudo, o propósito é a lanterna que nos guia, não as pernas que nos levam. Todo propósito deve ser sustentado por uma série de outros fatores para que uma empresa se torne bem-sucedida. O que tenho visto é uma infinidade de empreendedores achando que o propósito resolve tudo. Resolve a insatisfação do cliente. Resolve o aporte de capital. Resolve o produto mal feito.

O propósito é a lanterna que guia o caminho, mas são as habilidades práticas do empreendedor que movimentam as pernas para que ele percorra esse caminho. O propósito o manterá no caminho certo mesmo com todas as porradas na cara que ele tomar (e serão muitas!). 

No fim das contas, falar de propósito sem ter algo concreto a ser apresentado é o velho discurso bonito de rede social, para ganhar likes de gente que jamais comprará nada seu. O propósito é sim, relevante, ainda mais no mundo complexo que vivemos, com tantas escolhas e possibilidades. Mas ele, sozinho, não se sustenta. 

Um propósito exagerado pode, inclusive, se tornar perigoso, como no caso de Elizabeth Holmes e a Theranos. A falta de propósito pode trazer infelicidade. O excesso de propósito, sem ética, sem limites, sem transparência, também. 

Os grandes empreendedores que conheço são aqueles que não endeusam o propósito. Eles o reconhecem, eles o usam como um instrumento poderoso para se manter no caminho certo e na missão certa… E TRABALHAM para que aquilo tudo não seja em vão. Dizer a um investidor ou cliente o quão bonito é o seu propósito sem apresentar resultados, possibilidades, conhecimento, garra e aprendizado é o velho discurso para inglês ver. 

Tenho visto muitos empreendedores focando apenas no propósito, esquecendo da segunda parte. Do suor, do estudo, do trabalho pesado. Essa equação deve ser sempre equilibrada. 

Trabalho sem propósito se torna um fardo. 

Propósito sem trabalho é só discurso de rede social. 

Em tempos de muitas buzzwords, cuidado para não endeusar o propósito. 

Steve Jobs queria sim mudar o mundo através do design e da tecnologia. Mas tinha também ao seu lado alguns dos mais brilhantes profissionais do mundo e uma visão de produto altamente diferenciada. 

Jeff Bezos queria transformar a Amazon na loja de tudo. Mas tinha também uma visão de negócios e uma visão estratégica poucas vezes vista. 

Um dos maiores exemplos de propósito aliado a trabalho que conheço é do meu amigo Jacson Fressato, que criou o robô Laura depois da morte da própria filha (clique aqui para assistir parte da minha entrevista com ele). 

Como quase tudo no mundo dos negócios (e na vida), é bom evitar os extremos. Trabalho e propósito andando juntos podem produzir resultados incríveis. 

Propósito é a lanterna que guia o caminho, não as pernas que te levam até lá. 

 

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Uma resposta para “A modinho do Propósito”

  1. SONIA GURGEL disse:

    Concordo plenamente com suas colocações. Além de propósito novas palavras estão sendo endeusadas, sendo que uma das mais recentes é “manifesto”, que por si só não gerará nada!
    abraço

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Allan Costa
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