A febre dos Gurus e Especialistas

 / 15.08.2019

Vira e mexe, me deparo com coisas nas redes sociais que me deixam surpreso. Essa semana, foi no Instagram.

Era um curso online para empreendedores. O que mais me chamou atenção foi o subtítulo do tal curso: “Descubra o segredo por trás das empresas trilionárias”, acompanhado pelas logos de Microsoft, Amazon e Apple. 

Sério????? Ora, faça-me o favor!!!

Não sei se choro ou rio. Pense comigo: se alguém se julga tão brilhante a ponto de ser capaz de descobrir o segredo por trás de Microsoft, Amazon e Apple, por qual motivo ele mesmo não cria sua própria empresa e a desenvolve até que ela se torne, também, trilionária?

Além disso, é quase maluquice querer encontrar um grande segredo em comum para o sucesso de empresas como essas. A Amazon foi fundada em 1994. A Apple, em 1976. A Microsoft, em 75. Dizer que existe um segredo absoluto por trás do sucesso de empresas como essas é quase insultar a inteligência daqueles que querem empreender. 

Criar uma uma empresa desse depende de milhões de diferentes fatores, de milhões de profissionais altamente capacitados e de milhares de pequenas decisões tomadas ao longo das décadas. E, como quase sempre, cada caso, é um caso. Não existe fórmula.  Atenção, vou repetir: NÃO EXISTE FÓRMULA! 

De repente, parece que empreender virou algo super cool. A internet trouxe uma poderosa ferramenta para que qualquer um de nós tenha acesso a informações e conteúdos que nossos ancestrais não podiam sequer imaginar. O outro lado, é que qualquer um agora pode se definir como o especialista. Como o empreendedor. Parafraseando meu amigo Pedro Waengertner, se o Brasil tivesse tantos especialistas quanto as redes sociais nos mostram, nosso PIB estaria muito, muito maior. 

Nada contra quem quer se tornar um especialista em determinada área e conseguir mais oportunidades a partir disso. A grande questão é: de repente, parece que ser um aprendiz, um empregado, um profissional ainda em formação, se tornou algo feio, quase proibido. Ser o CEO do próprio negócio parece ter se tornado o único caminho possível para quem quer construir algo significativo, com propósito e trabalho. 

Você, provavelmente, já se deparou com diversos especialistas do tipo em redes sociais. 

O que proponho aqui não é, de forma alguma, combater a ambição alheia. Minha reflexão aqui tem a ver, sobretudo, com humildade. Você já ouviu falar sobre o Efeito Dunning-Kruger?

Este fenômeno, descoberto pelos pesquisadores Justin Kruger e David Dunning, mostra que indivíduos que possuem pouco (ou muito pouco) conhecimento sobre determinado assunto, acreditam saber mais sobre esse assunto que quaisquer outras pessoas.

O sujeito leu Marketing 4.0? Agora é especialista em marketing digital. 

Leu O Dilema da Inovação? Especialista em inovação. 

A Startup Enxuta? A partir de agora, se autodenomina especialista em startups. 

Reconhece esse padrão? Poste uma foto com as hashtags #empreendedorismo ou #marketing e você verá do que estou falando.

O Efeito Dunning-Kruger faz com que esse mesmo sujeito que leu apenas um (ou poucos) livros sobre determinado assunto se sinta muito superior a todos os demais, causando a chamada superioridade ilusória.

Os maiores especialistas que conheço passaram décadas afiando seus machados. Lendo, pesquisando, buscando referências, testando, errando. Não há nada de errado em querer ser um especialista (ou, como parece estar na moda, um guru). Contudo, o primeiro passo, antes de querer colocar uma especialidade a mais na biografia do Instagram ou Linkedin, é abaixar a cabeça. 

Back to the basics. Aprender o básico, ler os clássicos. 

Antes de tentar criar o próprio método, fórmula, metodologia ou seja lá o que for, aprender com quem já faz aquilo há 10, 20, 50 anos. Se inserir no mercado, procurar por bons mentores e focar em colher resultados. Antes de querer se denominar o novo guru do marketing digital, aprender os conceitos básicos e clássicos, criados há décadas. Quantos gurus de marketing você já ouviu falando sobre conceitos como Miopia de Marketing? O conceito foi criado nos anos 60 e permanece extremamente relevante até hoje, mas imagino que são poucos os gurus que o abordam.

Se você, por outro lado, está buscando um especialista para o seu negócio, o caminho é bastante parecido. Foque nos profissionais que realmente já fizeram acontecer, não naqueles que apenas falam termos em inglês e querem soar como espertos, mas não possuem resultados concretos para mostrar. 

O caminho para se tornar um especialista (se é que isso realmente será relevante no futuro, em que tudo mudará ainda mais rápido) não é sobre buscar os holofotes. 

É sobre abaixar a cabeça para realmente mergulhar naquele novo mundo. Abaixar a cabeça para trabalhar, sem jamais deixar de ter a mente aberta para as mais diferentes referências. Só assim é possível conectar diversos pontos diferentes e criar novas teses. 

 Antes de procurar os holofotes, é preciso abaixar a cabeça e trabalhar. Apenas abaixar a cabeça e trabalhar. 

 

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Allan Costa
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